Arte que não tem preço: Vera Senefonte doa novas obras à Amamsul
Aos 68 anos, pensionista da magistratura tem a Série Onça Pintada entre as obras do Vestibular 2026 da UFGD e mantém uma decisão que atravessa toda a sua trajetória artística: nunca vendeu uma tela

Foto: Renan Kubota
A artista plástica e pensionista da magistratura Vera Senefonte, de 68 anos, acaba de doar novas obras à Amamsul justamente colocadas em um espaço dedicado à formação de quem sonha ingressar na magistratura. As telas de araras passam a integrar o corredor da Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso do Sul (Esmagis), frequentada por estudantes e profissionais que se preparam para a carreira jurídica.
A doação ocorre em um momento especial da trajetória da artista. A Série Onça Pintada, de Vera Senefonte, foi incluída no ano passado entre as obras plástico-visuais do Vestibular 2026 da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

Foto: acervo pessoal
Há uma singularidade que ajuda a contar essa história: Vera nunca vendeu uma tela, toda obra já tinha um único dono. A relação dela com a arte também se confunde com uma história de amor de 42 anos com o juiz José Rubens Senefonte, falecido em 2015. “Meu marido sempre me agradava com tintas e telas. Ele era o meu fã número um e não deixava eu vender nenhuma. Nunca vendi e, agora, também não quero vender. Uma tela, para mim, não tem preço”, conta.
O magistrado José Rubens, segundo ela, também era apaixonado por fotografia. Começou a fotografar ainda adolescente e chegou a manter laboratório fotográfico em casa. Uma das fotografias de uma onça produzidas por ele quando Vera tinha 18 anos acabou se tornando referência para pinturas que marcariam sua trajetória artística.
A onça ganhou tantas versões que, em
Foto: acervo pessoal
Corumbá, uma das obras recebeu carinhosamente o apelido de “Mona Onça”.
Anos depois, Vera protagonizou uma cena que guarda entre suas lembranças preferidas. Levou consigo uma fotografia de sua onça, estampada em sua camiseta, ao Museu do Louvre, em Paris. Diante da Mona Lisa, abriu discretamente o casaco e posou com a imagem. “Foi muito especial. Não tem dinheiro que pague.”

Foto: acervo pessoal
Essa frase explica boa parte de sua relação com a própria arte. Vera fez o curso de Artes Plásticas na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e participou de exposições individuais e coletivas. Também esteve em duas edições do Festival América do Sul, em Corumbá.
Suas telas estão hoje em diferentes espaços públicos e institucionais. Há obra doada ao Hotel da Amamsul, à Sala Pantanal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul e à Casa da Mulher Brasileira.

Foto: Renan Kubota
Agora, as araras que chegaram à Esmagis ampliam essa coleção compartilhada. “Estou na Amamsul desde 1990, vi construírem o salão de festas, acompanhei a evolução da associação e é maravilhoso ver a parede branca colorida com esses quadros”, comentou a funcionária Cleonice Rodrigues da Silva Leonel, de 60 anos, dos serviços gerais.

Foto: Renan Kubota
Colecionadora de histórias e medalhas
A ligação de Vera com a magistratura, entretanto, vai muito além das paredes onde suas pinturas estão expostas. Ela foi a primeira mulher pensionista de Mato Grosso do Sul a participar dos Jogos da Magistratura e dos jogos da categoria, em Maceió (Alagoas), organizado pela Associação dos Magistrados Brasileiros. E participa para competir: coleciona medalhas no tiro e também em corridas por faixa etária.
Durante muitos anos, Vera costumava pintar especialmente para José Rubens, muitas vezes em agosto, em comemoração ao Dia dos Pais. Coincidentemente, esse período traz mais recordações saudosistas do marido. “O aniversário dele era em 5 de outubro.”
Hoje, o gesto encontrou novos destinatários.
As telas que antes eram presentes para o marido passaram também a ocupar espaços frequentados por magistrados, estudantes e futuros integrantes da carreira. “Eu continuo sem colocar preço na minha arte”, disse.

Foto: Renan Kubota
Vera Senefonte prefere transformar a própria arte em presente, memória e legado. Para o presidente da Amamsul, Mário José Esbalqueiro Júnior, a doação torna os espaços da entidade ainda mais especiais. “Receber as obras da Vera é uma alegria e também uma forma de preservar uma história que faz parte da magistratura de Mato Grosso do Sul. São telas que carregam afeto, memória e generosidade e que, agora, passam a fazer parte também do cotidiano de quem frequenta a Amamsul e a Esmagis.”

Foto: Renan Kubota
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